Stradivarius, Guarnerius, Amati? Doce ilusão!
Vlamir Devanei Ramos*
Há
muitos anos sou frequentemente procurado por pessoas até de outras cidades e
estados, ávidas para que eu conheça uma “raridade” e lhes faça uma
avaliação aproximada.
Em pura inocência, quase sempre afirmam possuírem um “tesouro” trazido
há mais de 100 anos por seus avôs ou bisavôs, antigos imigrantes amigos da
família, pessoas importantes e influentes da sociedade, padres italianos ou
algo parecido. Acreditam estar ali uma pequena ou às vezes uma grande
fortuna.
Quase
sempre as visitas (até de famílias inteiras) são acompanhadas de histórias
fascinantes com fugas de guerras, viagens em porões de navios e outras como
uma de um amigo de S. Paulo, sobre um velho médico que voltou à Rússia após
muitos anos de fuga para o Brasil, somente para buscar um raríssimo
instrumento que lá havia ficado escondido e que foi salvo das agruras da
guerra após sair da Rússia para a China através da neve numa carroça de
melancias, para mais tarde voltar à Europa não sei por quais vias. Tal
raridade seria um fantástico “Guarneri del Gèsu”, instrumento este que
naquele momento iria me mostrar. Mesmo desconfiado, acende-me a chama de
grande expectativa, porém ao vê-lo, a decepção de sempre.
Certa
vez uma velha senhora viajou com seu filho por mais de cinco horas para chegar
à minha casa e me mostrar um “Stradivarius” que pertencera a seu
falecido esposo. Pretendia fazer a venda do mesmo e assim conseguir recursos
para uma caríssima cirurgia de que necessitava, mesmo que para isso não
obtivesse na venda, todo o valor que imaginava possuir.
Trouxe o instrumento acompanhado de fotos e documentos que ele (o marido)
mandara em certa época à famosa Casa Sotheby’s e também o “documento”
enviado pela Casa a ele sobre o violino.
O tal
“documento” em inglês dizia mais ou menos o seguinte:
“Lamentamos desapontá-lo, porém seu instrumento é uma construção posterior à
data impressa.
Não temos interesse no mesmo e desejamos sinceramente que possa fazer uma boa
venda em seu país.”
Durante anos essa senhora guardou com zelo aquela magnífica carta que se
pedisse a alguém para traduzi-la, teria evitado a longa viagem.
As
histórias dariam para escrever livros, assim como as etiquetas extraídas ou
deixadas nesses instrumentos.
São sempre Antonius Stradivarius, Joseph Guarnerius, Nicolaus Amatus, Carlo
Bergonzi e outros famosos construtores cremonenses.
Mas e a autenticidade?
Eis a questão.
Como
na história da velha senhora que viajou sem necessidade, os instrumentos são
de qualidades que variam do péssimo ao bom e são apenas para estudantes. Nada
mais que isso.
Diante dessa realidade pergunta-se:
- Se
são construções antigas, como podem ser de fábrica (feitos em série)?
- Por que portam tais etiquetas?
- O que são os chamados instrumentos de “oficina”?
Para
entender tal situação, deve-se lembrar que no final do século XVIII, com o
advento do Classicismo e as orquestras com contingente maior de músicos, além
da mistura dos instrumentos de metais com as cordas e madeiras, houve aumento
na procura pelos instrumentos de cordas, fato que trouxe sobrecarga de
trabalho aos luthiers da época e que por isso, não conseguiam atender à
demanda.
Por
volta do ano 1800, criou-se na França um equipamento conhecido como
“Pantógrafo Tridimensional”, através do qual era possível fazer cópias de
uma peça em madeira (atualmente se faz em qualquer material), replicando seu
formato e dimensões, como comprimento, largura e altura, fato que propiciou o
surgimento das primeiras fábricas e os primeiros instrumentos
industrializados.
Esses
instrumentos quase sempre eram fabricados em boa madeira, com boa aparência e
portavam uma etiqueta correspondente ao modelo e ano do instrumento copiado,
porém por várias questões técnicas, não possuíam a qualidade acústica e
principalmente o timbre dos instrumentos construídos pelos luthiers.
Importante notar que muitas dessas etiquetas, principalmente em instrumentos
construídos no final do século XIX e até meados do século XX, trazem a
inscrição “made in Germany” , “made in Checoslovaquia”
ou em francês “modele d’après” seguido do nome do autor.
Por
isso só já não é possível conceber como instrumentos cremonenses (italianos).
A
prática de se colocar tais etiquetas com nomes dos autores copiados foi
proibida por volta do ano de 1980, através de regulamentação européia e por
ação de entidades ligadas ao controle desses instrumentos autênticos e
preservação da memória dos grandes mestres.
Ainda
no século XIX, em várias localidades da Europa, alguns luthiers também criaram
as chamadas “oficinas”, que nada mais eram do que grandes luterias onde
os instrumentos eram construídos manualmente por várias pessoas ao mesmo
tempo, e dessa forma, enquanto umas faziam os tampos, outras faziam os fundos,
outras os braços, outras preparavam as faixas, outras envernizavam e assim era
até a finalização do instrumento.
Todo
esse processo agilizava a construção permitindo grande produção, porém os
métodos individuais e os critérios de cada luthier eram diferentes, o que
logicamente dificultava uma homogeneidade no resultado. Com isso, mesmo
utilizando madeiras excelentes, produziam instrumentos com extremas variações
de sonoridade, e qualidade questionável, sendo também indicados apenas para
estudantes.
Muitos luthiers sem escrúpulo, principalmente no Brasil, modificam
“instrumentos de fábrica” antigos e oferecem aos músicos como sendo
“instrumentos de oficina”, ou até de “autor desconhecido”, com preços
exorbitantes.
Outros colocam etiquetas falsas de algum luthier em “instrumentos de oficina”
e vendem como sendo autênticos (de autor).
Posso
dizer com certa tranqüilidade que é muito difícil saber se um instrumento é
autêntico, mas bastante possível saber se não é.
Muitos músicos caem em histórias e levam prejuízos irreparáveis, percebendo o
dolo somente após muitos anos. Cabe a cada um prevenir-se contra maus
profissionais (profissionais?) que possuem grande criatividade para mentir e
conhecem mais retórica para vendas do que instrumentos.
A
autenticidade de um instrumento é uma coisa bastante complicada e no Brasil,
não temos certificadores.
Com
relação a isso, o máximo que se pode conseguir, é um documento do próprio
construtor do instrumento, se for brasileiro, certificando que o instrumento é
de sua autoria. Nada mais que isso, e comercialmente o valor é quase nulo.
Se
for instrumento de autor estrangeiro, certifica-se só no exterior. E custa
caro.
No
Brasil não vieram imigrantes que fossem músicos profissionais e os músicos que
vieram não possuíam instrumentos valiosos. O único lugar da América do Sul que
recebeu alguns instrumentos autênticos, além de músicos profissionais e
luthiers italianos que trouxeram a luteria para cá foi a Argentina a partir de
1870, mas este é um assunto que comentarei em outro momento.
*
Vlamir Devanei Ramos é professor de Luteria Teórica, Luteria
Prática, Física Aplicada aos Instrumentos de Cordas e Desenho Técnico de
Luteria do Conservatório de Tatuí.